Sem Luis Castro, Gremio desafia a altitude de La Paz na Sul-Americana
Gremio pega o Bolivar nesta quinta (23) na altitude de La Paz pela ida dos playoffs da Sul-Americana, sem Luis Castro no banco. Volta e dia 30, na Arena.
O Grêmio encara nesta quinta-feira (23) um dos compromissos mais ingratos do calendário sul-americano: jogar a mais de 3,6 mil metros de altitude, no estádio Hernando Siles, em La Paz, contra o Bolívar, pela partida de ida dos playoffs da Copa Sul-Americana. A bola rola às 19h, no horário de Brasília, e o Tricolor entra em campo com um complicador de última hora. O técnico Luís Castro não embarcou com a delegação por questões de saúde e deixou o comando do time nas mãos do auxiliar Vitor Severino.
Não é um jogo qualquer. Vale uma vaga nas oitavas de final da competição continental, e o adversário que espera na fase seguinte já tem nome: quem avançar neste mata-mata enfrenta o São Paulo. A partida de volta está marcada para o dia 30, na Arena, em Porto Alegre. Ou seja, o que o Grêmio conseguir construir na Bolívia terá de ser defendido dentro de casa, diante da própria torcida, uma semana depois.
A altitude que joga pelo Bolívar
Antes mesmo de a bola rolar, o Grêmio já sabe qual é o oponente mais difícil da noite, e não é exatamente o time boliviano. O Hernando Siles fica encravado em La Paz, uma das capitais mais altas do mundo, com o gramado situado acima dos 3,6 mil metros. Nessa altitude, o ar rarefeito castiga o organismo de quem não está adaptado: a recuperação entre os sprints demora mais, a bola viaja diferente e o desgaste físico aparece muito antes do apito final.
Times brasileiros conhecem bem esse roteiro. É comum que as delegações desembarquem com a menor antecedência possível para reduzir o tempo de exposição, apostando que o corpo sofre menos num impacto curto do que numa aclimatação incompleta. A estratégia, porém, não garante nada. A história do futebol sul-americano está cheia de equipes que chegaram embaladas às terras altas e voltaram com placares pesados na bagagem.
Para o Grêmio, o roteiro pede prudência. Segurar o resultado, evitar tomar gols que compliquem a volta e sair de La Paz vivo na disputa costuma ser considerado um bom negócio por quem visita a altitude. Um empate, nesse contexto, raramente é encarado como fracasso.
Sem o treinador no banco
A ausência de Luís Castro mexeu com a preparação. O técnico ficou de fora da viagem por recomendação médica, e o auxiliar Vitor Severino assume a responsabilidade de montar e conduzir a equipe no jogo mais importante do time no momento. Não é uma situação confortável para ninguém: trocar o comandante às vésperas de uma partida decisiva, e ainda por cima em um ambiente hostil como o de La Paz, exige que a comissão técnica mantenha o plano de jogo já desenhado e evite improvisos.
Do lado boliviano, o Bolívar é dirigido pelo colombiano Alejandro Restrepo e joga com a vantagem de conhecer cada detalhe do próprio quintal. Mandar em casa, na altitude, é historicamente o principal trunfo dos clubes bolivianos nas competições da Conmebol, e o time da casa tende a apostar num início intenso, tentando aproveitar o período em que o adversário ainda sente mais os efeitos do ar rarefeito.
Desfalque na frente, reforço na volta
O Grêmio chega à Bolívia sem um dos seus atacantes. Carlos Vinícius está suspenso e não joga a ida, o que obriga a comissão a rearranjar o setor ofensivo. Como contrapartida, o time recupera Enamorado, que volta a ficar à disposição e desponta como opção para o ataque tricolor na altitude.
A escalação exata seguia como incógnita até perto do apito inicial, com diferentes formações sendo especuladas ao longo da semana. O que parece assentado é a ideia de um time equilibrado, capaz de se proteger nos primeiros minutos e explorar as transições, já que correr o tempo todo em La Paz é praticamente impossível. A economia de energia vira parte da tática.
O que está em jogo
Vale lembrar o desenho da competição. Os playoffs da Sul-Americana reúnem 16 clubes: os oito segundos colocados dos grupos da própria Sul-Americana e os oito times que caíram da fase de grupos da Libertadores em terceiro lugar. É um mata-mata de ida e volta que funciona como uma repescagem. Quem passa entra de vez no chaveamento das oitavas; quem cai, encerra a temporada internacional ali mesmo.
Para o Grêmio, o significado é duplo. Avançar mantém viva a chance de uma campanha de peso num torneio que dá vaga na próxima Libertadores ao campeão, além de injetar confiança num elenco que chega ao confronto após um tropeço no Campeonato Brasileiro. Cair, por outro lado, deixaria o clube dependente apenas do Brasileirão até o fim do ano, um cenário que a torcida quer evitar a todo custo.
O detalhe da volta na Arena pesa a favor do Tricolor. Fechar a série em Porto Alegre, com o apoio da arquibancada e sem o fantasma da altitude, é uma condição valiosa. Por isso a conta que a comissão faz em La Paz é conservadora: não perder o jogo por uma diferença que torne a classificação inviável em casa.
Um retrospecto curto nas terras altas
O histórico do Grêmio na capital boliviana é enxuto. Segundo levantamento da imprensa esportiva, o clube esteve em La Paz apenas três vezes antes desta quinta-feira, e o saldo é modesto: uma única vitória em meio a duas derrotas. O triunfo, aliás, é antigo, veio ainda nos anos 1980, justamente diante do Bolívar, em partida pela Libertadores. Repetir aquele feito, mais de quatro décadas depois, seria um alento raro para qualquer visitante brasileiro naquele estádio.
O número reforça o tamanho do desafio. Vencer na altitude é exceção, não regra, e as delegações que conseguem sair de La Paz sem prejuízo já comemoram. O Grêmio sabe disso e ajusta as expectativas ao terreno.
O gremista da região no clima do jogo
A partida ganha contornos especiais no interior gaúcho, onde o Grêmio divide as simpatias com o Internacional e mantém uma legião de torcedores no Vale do Rio Pardo. Em Santa Cruz do Sul e nas cidades vizinhas, boa parte dos gremistas acompanha o jogo pela transmissão, atenta a cada lance de um confronto que pode definir os rumos da temporada tricolor no cenário internacional.
O recado da noite é claro. La Paz é um lugar onde o Grêmio precisa jogar com a cabeça tanto quanto com as pernas, sabendo que a série só se decide de verdade daqui a uma semana, em casa. Se o time voltar da Bolívia com a chave em aberto, terá cumprido a missão mais dura. O resto se resolve na Arena, no dia 30, onde a torcida promete empurrar o Tricolor rumo às oitavas e ao duelo aguardado contra o São Paulo.