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Gás natural canalizado vai chegar a Santa Cruz do Sul: o gasoduto de 190 km da Sulgás e o que ele muda para a indústria do Vale

Sulgás anuncia gasoduto de 190 km até Santa Cruz e o Vale do Rio Pardo, em plano de R$ 163,7 mi. Veja trajeto, nove municípios, prazos e impacto na indústria.

RSRedação Santa Cruz FM20 de junho de 2026 · 7 min de leitura
Gás natural canalizado vai chegar a Santa Cruz do Sul: o gasoduto de 190 km da Sulgás e o que ele muda para a indústria do Vale

Santa Cruz do Sul vai deixar de depender só de GLP em botijão e de gás de cilindro para mover seus fornos e caldeiras. A Sulgás anunciou um gasoduto de cerca de 190 quilômetros que parte da região de Triunfo e Charqueadas e segue pelo estado até alcançar Lajeado, no Vale do Taquari, e Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo. A obra integra um plano de investimento de R$ 163,7 milhões para 2026, o maior já feito pela companhia em um único ano, e coloca a cidade, Venâncio Aires e municípios vizinhos numa rota de gás natural canalizado que pode pesar diretamente no custo de produção das fábricas da região.

A obra tem início previsto para novembro deste ano, com execução estimada em fases ao longo de sete a dez anos. É projeto de prazo longo, mas com data marcada para começar. Para uma região que vive de indústria, da fumicultura à metalurgia, a chegada do duto entra cedo no planejamento de quem produz por aqui.

O que foi anunciado, em números

Vale separar o plano geral da Sulgás para 2026 da obra específica que interessa ao Vale do Rio Pardo.

  • R$ 163,7 milhões é o investimento total da companhia para o ano. Em 2021, último exercício antes da privatização, o aporte havia sido de R$ 46 milhões.
  • 190 km é a extensão do novo gasoduto que vai ligar Triunfo e Charqueadas a Lajeado e Santa Cruz do Sul.
  • 84,4 km de rede devem ser assentados já em 2026, com a maior fatia (69,4 km) na Região Metropolitana e trechos menores na Serra Gaúcha (9,3 km) e na Região das Hortênsias (5,7 km).
  • 122 mil clientes é a projeção da Sulgás para o fim de 2026, contra 69 mil em 2021.
  • 1.671 km é a malha total que a empresa pretende alcançar, ante 1.377 km às vésperas da privatização.

Os dados constam do anúncio oficial do governo do estado e foram replicados pela imprensa regional que cobriu o evento. A leitura é direta: a Sulgás aposta na interiorização da rede, e o eixo dos Vales é o carro-chefe dessa expansão.

O que muda para quem mora aqui

A primeira mudança é industrial e direta. O gás natural canalizado tende a ser mais barato e mais estável do que o GLP usado hoje para queima em fornos e caldeiras, e custo de energia menor empurra a fábrica para um patamar mais competitivo. Numa cidade que respira indústria, isso conversa com manutenção e geração de emprego. O próprio discurso da Sulgás e do governo do estado coloca o atendimento à demanda industrial como objetivo central da obra.

A segunda é de retomada. Parte do traçado passa por regiões atingidas pelas enchentes recentes no Rio Grande do Sul, e levar infraestrutura energética nova a esses vales funciona como sinalização de que o estado segue investindo em quem foi castigado pelas cheias. Não resolve a conta da reconstrução, mas conta como gesto econômico.

A terceira é de horizonte. Onde a rede chega, ela raramente para na porta da fábrica. Com o adensamento da malha ao longo do tempo, o gás canalizado pode abrir caminho para comércio, condomínios e residências, a depender da densidade de cada bairro. É o tipo de investimento cujo tamanho real só fica claro uma década depois.

O trajeto: dois rios no caminho

A engenharia da obra tem um capítulo que ajuda a explicar o prazo longo. O gasoduto integra nove municípios ao sistema de distribuição: Triunfo, São Jerônimo, Bom Retiro do Sul, Cruzeiro do Sul, Estrela, Taquari, Venâncio Aires, Lajeado e Santa Cruz do Sul.

O trecho apontado como um dos mais complexos fica entre Triunfo e Mariante, distrito de Venâncio Aires. Ali o duto precisa atravessar dois rios, o Jacuí e o Taquari. Segundo a Sulgás, a ideia é que a tubulação passe pelo leito dos rios, solução que ainda depende de estudos técnicos e do licenciamento ambiental necessário para a execução. Travessia de rio em obra de gasoduto não é detalhe de cronograma: é a etapa que costuma ditar o ritmo do conjunto.

Antes disso, há um segmento cruzando Charqueadas para alcançar São Jerônimo, na margem esquerda do Jacuí. Ou seja, há muita geografia gaúcha a vencer antes de o gás chegar a Santa Cruz, e é aí que o prazo de sete a dez anos ganha sentido. Quem espera o duto ligado no curto prazo vai se frustrar; o calendário realista é o de uma obra de infraestrutura grande.

O papel da Unisc na definição do traçado

Um aspecto regional do projeto é a aproximação da Sulgás com a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Pelo que foi divulgado, a companhia está em conversas avançadas com a universidade para um estudo de mercado da região, ouvindo empresários, indústrias e grandes consumidores de energia para ajudar a definir o traçado ideal do gasoduto.

Não é, portanto, uma entrega de obra civil pela universidade, e sim um trabalho de inteligência de mercado: mapear onde está a demanda para que a rede chegue aos lugares certos. Para uma cidade universitária como Santa Cruz, ter a Unisc dentro dessa etapa de planejamento aproxima a decisão técnica da realidade econômica local, em vez de desenhá-la só de fora.

Gás natural e biometano: a fotografia maior

O gasoduto dos Vales não anda sozinho dentro da estratégia da Sulgás. O plano de 2026 também reserva recursos para biometano, o gás renovável produzido a partir de resíduos orgânicos. A companhia opera o Sulgás BioHub, em Esteio, com capacidade projetada de 30 mil metros cúbicos por dia, e recebe volume semelhante da unidade da Bioo, em Triunfo. Em Passo Fundo, há uma rede de cerca de 19 km abastecida 100% por biometano, apresentada como a primeira do tipo no estado.

Por que registrar isso aqui? Porque o Vale do Rio Pardo é território de agroindústria, e agroindústria gera resíduo orgânico em escala. A mesma lógica que viabiliza o biometano em outras regiões pode, no médio prazo, encontrar matéria-prima abundante por aqui. A chegada da rede física de gás é o primeiro passo para que essa conversa saia do plano teórico.

Quem falou e o que está em disputa

O anúncio teve peso político. O governador Eduardo Leite associou o desempenho da Sulgás à privatização da companhia, argumentando que o modelo atual quase quadruplica os investimentos e caminha para dobrar a base de clientes, com resultados que, segundo ele, a gestão pública não alcançava. O presidente da Sulgás, Marcelo Leite, destacou a transformação da empresa em uma operação mais moderna e eficiente, com a segurança tratada como "licença para operar". A companhia diz acumular quatro anos sem acidentes de trabalho.

Esse pano de fundo é também uma disputa de narrativa sobre privatização, e vai render debate. O dado concreto na ponta, porém, é menos controverso: o cronograma existe, a obra tem data para começar e Santa Cruz está no traçado.

O que observar daqui para frente

Três marcos valem acompanhamento nos próximos meses. O primeiro é o início efetivo das obras em novembro de 2026 e se o trecho da Região Metropolitana sai do papel no prazo prometido. O segundo é o licenciamento das travessias de rio entre Triunfo e Mariante, etapa que pode adiantar ou travar o avanço rumo aos Vales. O terceiro é a adesão das indústrias locais: o gasoduto só entrega o efeito econômico esperado se as fábricas de fato migrarem para o gás canalizado quando a rede chegar.

Energia potencialmente mais barata, indústria mais competitiva e um aceno de retomada para uma região golpeada pelas cheias. Para Santa Cruz do Sul e o Vale do Rio Pardo, o gasoduto da Sulgás é uma das pautas econômicas mais relevantes do ano, ainda que o gás só comece a queimar nas caldeiras daqui a alguns anos. A obra é longa e a expectativa, alta. Agora começa a contar o prazo.

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Perguntas frequentes

Quando o gás natural canalizado vai chegar a Santa Cruz do Sul?

A obra do gasoduto tem início previsto para novembro de 2026, mas a execução completa deve ocorrer em fases ao longo de sete a dez anos. Santa Cruz do Sul fica no fim do traçado de cerca de 190 km que parte da região de Triunfo e Charqueadas, então o gás canalizado não deve estar disponível na cidade de imediato, e sim ao longo dessa janela de obras.

Quanto a Sulgás vai investir e quais cidades serão beneficiadas?

O plano da Sulgás para 2026 prevê R$ 163,7 milhões, o maior investimento anual da história da companhia. O gasoduto integra nove municípios ao sistema de distribuição: Triunfo, São Jerônimo, Bom Retiro do Sul, Cruzeiro do Sul, Estrela, Taquari, Venâncio Aires, Lajeado e Santa Cruz do Sul.

Por que a obra é considerada complexa?

O trecho apontado como um dos mais difíceis fica entre Triunfo e Mariante, distrito de Venâncio Aires, porque o gasoduto precisa atravessar dois rios, o Jacuí e o Taquari. A ideia é passar a tubulação pelo leito dos rios, solução que ainda depende de estudos técnicos e de licenciamento ambiental, etapa que pode influenciar todo o cronograma.

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