Duplicação da RSC-287 avança: Estado desapropria 26 áreas em Santa Cruz do Sul e Vera Cruz
Dois decretos de 1º/7/2026 declaram de utilidade pública 26 áreas em Santa Cruz do Sul e Vera Cruz para a duplicação da RSC-287. Veja o que muda.
A duplicação da RSC-287 deu mais um passo concreto no Vale do Rio Pardo. Em 1º de julho de 2026, o governo do Estado publicou no Diário Oficial dois decretos que declaram de utilidade pública 26 áreas de terra em Santa Cruz do Sul e Vera Cruz, abrindo caminho para as desapropriações que a concessionária Rota de Santa Maria precisa concluir antes de avançar com as máquinas em novos trechos da rodovia. É a burocracia que antecede o asfalto — e, para quem acompanha a obra mais reivindicada da região há décadas, o sinal de que ela continua se movendo.
Os dois textos, assinados pelo governador Eduardo Leite, autorizam a concessionária a promover as desapropriações e a arcar com todos os custos do processo. Ao todo, as 26 áreas somam 38.603,68 metros quadrados e atingem 37 matrículas nos cartórios de registro de imóveis de Santa Cruz do Sul e de Vera Cruz. Não se trata de tomar propriedades sem contrapartida: a declaração de utilidade pública é a etapa legal que permite negociar a indenização com os proprietários e, se necessário, recorrer à Justiça para garantir a posse do que for indispensável à faixa duplicada.
O que cada decreto libera
Os dois decretos tratam de frentes distintas da mesma rodovia, e vale separá-las para não misturar o que já ficou pronto com o que ainda está por vir.
O primeiro decreto declara de utilidade pública uma única área de 7.143,30 metros quadrados, situada na zona rural de Santa Cruz do Sul, entre os quilômetros 78 e 91 da RSC-287. Essa faixa faz parte das obras de duplicação do chamado trecho ST4.
O segundo é o mais robusto e o que concentra a maior parte do movimento agora. Ele contempla 25 áreas de terra destinadas às obras do trecho ST6, entre os quilômetros 104 e 115 — cerca de 11 quilômetros que se estendem por Santa Cruz do Sul e por Vera Cruz. Juntas, essas 25 áreas totalizam 31.460,38 metros quadrados. É justamente o segmento que passa nas imediações da divisa entre os dois municípios, região onde a rodovia deixa de ser apenas via de passagem e se confunde com a malha urbana e industrial que cresceu ao longo de suas margens.
Não confunda com o trecho já entregue
Aqui cabe um cuidado que muita gente passa batido. A RSC-287 já teve um trecho de pouco mais de 6 quilômetros duplicado antes, em Santa Cruz do Sul, na região do quilômetro 101 ao 105 — obra que a concessionária concluiu como parte das primeiras frentes do contrato. Esse pedaço pronto não é o mesmo das 26 desapropriações agora publicadas. As áreas dos decretos de julho de 2026 miram trechos ainda por duplicar, sobretudo o ST6, mais adiante no traçado. Ou seja: o que se anuncia não é uma repetição, e sim a preparação do terreno para a próxima etapa.
Uma obra que a região cobra há anos
Para entender por que cada decreto vira notícia, é preciso lembrar o tamanho do projeto. A RSC-287 liga Tabaí a Santa Maria ao longo de aproximadamente 204,5 quilômetros e corta a espinha dorsal do interior gaúcho, do entorno de Porto Alegre até a região central do Estado. É por ela que escoa boa parte da produção do Vale do Rio Pardo e ela conecta doze municípios: Tabaí, Taquari, Venâncio Aires, Santa Cruz do Sul, Vera Cruz, Vale do Sol, Candelária, Novo Cabrais, Paraíso do Sul, Agudo, Restinga Sêca e Santa Maria.
A rodovia está sob concessão da Rota de Santa Maria, do Grupo Sacyr, em contrato de 30 anos iniciado em agosto de 2021. O compromisso prevê a duplicação da rodovia nos dois sentidos, com investimentos que passam da casa dos R$ 3,6 bilhões ao longo do contrato, além de cinco praças de pedágio com tarifas-teto definidas pelo Estado. O cronograma acordado estabelece metas por ano de concessão — parte expressiva do traçado, incluindo o trecho mais movimentado entre Tabaí e Candelária, deve estar duplicada até o nono ano.
Durante décadas, a duplicação da 287 foi mais promessa do que realidade. Entidades como a Fecomércio-RS voltaram a apontar, em 2026, a duplicação da RSC-287 e as melhorias na BR-471 como prioridades de infraestrutura para o Vale do Rio Pardo. A recorrência do tema no discurso de lideranças econômicas mostra o peso que a rodovia tem para quem produz, transporta e emprega na região.
O que muda para o motorista
No dia a dia de quem pega a estrada, a duplicação significa, antes de tudo, mais segurança. A pista simples é o cenário em que acontecem as ultrapassagens arriscadas e as colisões frontais — as mais graves. Com duas faixas em cada sentido separadas por canteiro central, esse tipo de acidente cai drasticamente. Some-se a isso acostamentos, sinalização nova, viadutos e acessos regularizados, e o trecho tende a ficar menos travado nos horários de pico e nos fins de semana.
Mas a transição tem custo. Nas frentes de obra, os desvios, os bloqueios parciais e as reduções de velocidade fazem parte do processo e exigem paciência de quem trafega. Em audiências públicas na Câmara de Santa Cruz do Sul, moradores das imediações dos quilômetros 102, 103 e 104 — bairros como Renascença e Germânia — relataram problemas durante as intervenções, de rachaduras em residências à falta de acessos adequados e de passagens de fauna, além de cobrarem mais diálogo da concessionária antes do início dos serviços. São questões que caminham em paralelo às desapropriações e que ajudam a explicar por que a comunidade acompanha cada etapa de perto.
Escoamento, indústria e o futuro de Vera Cruz
O impacto vai muito além do trânsito. A RSC-287 é corredor logístico de peso para o Vale do Rio Pardo, uma das regiões mais industrializadas do interior gaúcho. É por ela que roda parte da produção do complexo do fumo — que tem em Santa Cruz do Sul um de seus polos históricos — e a movimentação ligada à cadeia da celulose e da madeira, que ganhou força na região. Cada minuto a menos e cada caminhão a mais que trafega com segurança se traduz em custo de frete e em competitividade para a indústria local.
O trecho ST6, entre os quilômetros 104 e 115, é especialmente estratégico porque toca Vera Cruz num momento de expansão urbana e industrial do município. A cidade, colada a Santa Cruz do Sul, viu sua ocupação avançar justamente ao longo do eixo da rodovia, e a duplicação tende a organizar esse crescimento — separando o tráfego de passagem do trânsito local, criando acessos mais seguros e valorizando as áreas lindeiras. Para o poder público municipal, é também a chance de destravar projetos que dependem de uma via à altura do porte da região.
O que vem pela frente
Com os decretos publicados, a Rota de Santa Maria pode agora avançar nas tratativas com os proprietários das 26 áreas, negociar as indenizações e liberar a faixa necessária para tocar as obras dos trechos ST4 e ST6. É um passo administrativo, é verdade — mas é o passo sem o qual as máquinas não entram. Para o Vale do Rio Pardo, que espera pela duplicação completa da 287 há mais tempo do que muitos moradores conseguem lembrar, cada matrícula declarada de utilidade pública é um pedaço a menos entre a promessa e a pista dupla.
O acompanhamento das próximas etapas — cronograma das frentes, andamento das indenizações e as obras complementares cobradas pela comunidade — segue sendo o que vai medir, na prática, se a rodovia mais esperada da região finalmente cumpre o prometido dentro do prazo do contrato.