A empresa de Santa Cruz que entrou pelo segundo ano seguido na lista das mais inovadoras do Sul
A Excelsior Alimentos ficou de novo entre as Campeãs da Inovação. Veja o case apresentado, como o ranking mede inovação e o que isso diz da região.
Inovação, no vocabulário corporativo, virou palavra gasta. Costuma aparecer colada a laboratório caro, sala colorida e verba de pesquisa. O case que colocou uma empresa de Santa Cruz do Sul de novo entre as mais inovadoras da Região Sul aponta para outro lugar: reorganizar a conversa que já existia dentro da própria companhia.
A Excelsior Alimentos está, pelo segundo ano consecutivo, no ranking Campeãs da Inovação 2026, promovido pelo Grupo Amanhã. A premiação aconteceu nesta quinta-feira, 13, no Tecnopuc, em Porto Alegre.
O que a empresa levou para a premiação
O diferencial apresentado nesta edição foi o case batizado internamente de "Como a inteligência coletiva estruturada gerou o lançamento mais dinâmico da história da companhia". A descrição é menos hermética do que parece.
A empresa revisou processos internos para reduzir barreiras entre áreas, transformando conhecimento espalhado em decisão estratégica. O centro dessa engrenagem é um Comitê de Produtos e Inovação formado por profissionais de setores diferentes, com participação de universidades, fornecedores, consultorias e consumidores ao longo do desenvolvimento.
A metodologia reúne inteligência de mercado, monitoramento de tendências, cocriação, validação sensorial e critérios objetivos de priorização. O resultado é um fluxo contínuo, da geração da ideia até o acompanhamento pós-lançamento.
Segundo a empresa, isso ampliou a capacidade de inovar sem exigir necessariamente mais investimento em Pesquisa e Desenvolvimento. Em tempos de juros altos e margem apertada na indústria de alimentos, esse detalhe pesa.
O patê que virou prova de conceito
Toda tese corporativa precisa de evidência. A da Excelsior foi o Patê de Frango com Cebola e Salsa, desenvolvido em menos de dois meses.
Os números divulgados: em apenas um ano de mercado, o produto alcançou uma base de clientes 8,5 vezes superior à de lançamentos equivalentes e atingiu 65% do giro do sabor mais vendido da categoria. A companhia classifica o desempenho como inédito internamente.
Para Paula Fengler, especialista em Pesquisa e Desenvolvimento e Inovação da Excelsior Alimentos, o reconhecimento aponta para uma mudança mais profunda. "Ao estruturar a inteligência coletiva da empresa, conseguimos transformar diferentes perspectivas em decisões mais qualificadas, aproximar o consumidor do desenvolvimento e acelerar o tempo de resposta ao mercado", afirma. Segundo ela, o resultado é um modelo que fortalece a capacidade de inovar continuamente.
Como o ranking mede inovação
O Campeãs da Inovação é um dos levantamentos mais antigos do jornalismo econômico brasileiro sobre o tema e chegou à 22ª edição. Ele é conduzido pelo Grupo Amanhã em parceria com o IXL Center, de Cambridge, Massachusetts, nos Estados Unidos.
A ferramenta usada é o Innovation Management Index, da metodologia do Global Innovation Management Institute. A avaliação considera cinco dimensões da gestão da inovação: Estratégia, Processos, Organização, Cultura e Recursos. O foco é a capacidade de transformar conhecimento em resultado concreto para o negócio, e não a quantidade de projetos anunciados.
O evento deste ano teve como tema a governança orientada por inteligência artificial, com transmissão simultânea pelo canal AMANHÃTV no YouTube e participação de Hitendra Patel, CEO e fundador do IXL Center.
O que isso diz sobre a economia do Vale
A região do Vale do Rio Pardo carrega uma identidade econômica antiga, ancorada no fumo e na cadeia que se formou ao redor dele. Ver uma indústria de alimentos local disputando espaço em um índice comparativo de inovação é sintoma de uma diversificação que vem sendo construída há anos, com altos e baixos.
Empresa que aparece uma vez em ranking pode ser sorte de edição. Empresa que aparece duas vezes seguidas costuma indicar processo instalado. E processo instalado é o que sustenta emprego qualificado na região, atrai parceria com universidade e segura profissional que, sem isso, migraria para a Região Metropolitana.
Do discurso ao planejamento
Um ponto do anúncio merece atenção de quem acompanha gestão. Em 2025, a Excelsior incorporou formalmente a inovação como um dos pilares do plano corporativo, ampliou investimentos no seu Food Lab, fortaleceu parcerias com universidades e institutos de pesquisa e estruturou indicadores específicos para acompanhar o desempenho do portfólio de novos produtos.
A diferença entre discurso e prática costuma morar exatamente aí: no indicador. Sem métrica de acompanhamento, inovação vira apresentação de slides. Com métrica, vira decisão de orçamento.
Inovar sem gastar mais em pesquisa
Há um ponto no case que merece leitura atenta por parte de qualquer empresário da região. A empresa afirma que ampliou a capacidade de inovação sem necessariamente demandar investimentos adicionais em Pesquisa e Desenvolvimento.
A frase soa como marketing, mas descreve um mecanismo bem concreto. Boa parte do conhecimento que faz um produto dar certo já existe dentro da companhia, distribuído entre quem está no chão de fábrica, quem atende o cliente, quem negocia com o fornecedor e quem acompanha a gôndola. O que costuma faltar é um canal onde essa informação chegue a quem decide, no tempo certo e em formato utilizável.
O comitê multidisciplinar descrito pela Excelsior é exatamente esse canal. Não é tecnologia cara, é desenho organizacional. Para uma indústria de porte médio no interior gaúcho, essa distinção importa, porque significa que competir em inovação não depende necessariamente de um centro de pesquisa milionário.
A inteligência artificial no pano de fundo
O tema escolhido para o evento deste ano diz algo sobre a direção do debate empresarial no Sul: governança orientada por inteligência artificial. A abertura ficou por conta de Hitendra Patel, CEO e fundador do IXL Center, dos Estados Unidos, e houve transmissão simultânea pelo canal AMANHÃTV no YouTube.
Para empresas da região, o recado embutido é menos sobre adotar ferramentas novas e mais sobre governança: quem decide, com base em quais dados, e com qual critério de prioridade. Companhia que ainda decide lançamento por intuição de diretoria tende a ficar para trás não por falta de tecnologia, e sim por falta de método.
O que observar daqui para frente
Para o leitor da região, três sinais dizem se o modelo se sustenta: a frequência de novos lançamentos ao longo de 2026, o desempenho desses produtos nas gôndolas do Sul e a manutenção das parcerias com universidades, que costumam ser as primeiras a cair quando o caixa aperta.
Enquanto isso, o placar já é público: dois anos seguidos entre as mais inovadoras do Sul, com o nome de Santa Cruz do Sul no meio de uma lista que costuma ser dominada por companhias de Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis.
Leia também
Perguntas frequentes
O que é o ranking Campeãs da Inovação?
É um levantamento do Grupo Amanhã, na 22ª edição, que avalia empresas da Região Sul pelo Innovation Management Index, ferramenta da metodologia do Global Innovation Management Institute aplicada pelo IXL Center, dos Estados Unidos.
Quais dimensões o índice avalia?
Cinco: Estratégia, Processos, Organização, Cultura e Recursos. A ideia é medir a capacidade de transformar conhecimento em resultado concreto para o negócio.
Qual case a Excelsior apresentou em 2026?
Um modelo de inteligência coletiva estruturada, com comitê multidisciplinar e participação de universidades, fornecedores e consumidores, que resultou no lançamento do Patê de Frango com Cebola e Salsa em menos de dois meses.