Encruzilhada do Sul votou dez vezes mais que Santa Cruz: o retrato da Consulta Popular no Vale do Rio Pardo
Com 5.077 votantes, o Vale do Rio Pardo garantiu R$ 2,2 milhões na Consulta Popular. Veja quem votou, o que venceu e por que as cidades pequenas lideraram.
O Vale do Rio Pardo terminou a Consulta Popular de 2026 com 5.077 votantes e a sexta maior participação entre todos os Coredes do Rio Grande do Sul. É um bom número — e, ao mesmo tempo, um número que esconde uma distorção que vale olhar de perto.
A votação, realizada entre 20 e 26 de julho, definiu o destino de R$ 2.228.571,42 do orçamento estadual. O valor será dividido em cotas iguais de R$ 742.857,14 entre as três propostas mais votadas pela comunidade regional.
O que a região escolheu
Cinco propostas disputavam; três levaram recurso.
1º lugar — Programa Água na Fonte (Seapi), com 1.879 votos. Voltado à proteção de nascentes, foi o mais votado com folga. Não é um detalhe: numa semana em que a região acompanhava a elevação dos rios e mantinha ações preventivas, a comunidade escolheu como prioridade justamente o cuidado com a água na origem. É uma escolha que conversa diretamente com a discussão sobre conservação ambiental e uso do solo que atravessa todo o Vale.
2º lugar — Fortalecimento e fomento à produção e agroindustrialização da agricultura familiar (SDR), com 1.223 votos. O tema chega na mesma semana em que Santa Cruz abriu oficialmente a Semana da Agricultura Familiar, com ações na Praça da Cultura.
3º lugar — Raízes do Futuro (SDR), com 705 votos. Focado na juventude rural e na sucessão familiar, é a proposta que enfrenta o problema mais silencioso da região: quem fica na terra quando os pais envelhecem.
Ficaram de fora do repasse os projetos de manejo de solo e a formação de guias mirins, que não atingiram a pontuação necessária.
A distorção que os números absolutos escondem
Aqui está o dado mais interessante da apuração. Em números absolutos, Encruzilhada do Sul liderou a região com 1.238 votantes. Santa Cruz do Sul, o maior colégio eleitoral do Vale, ficou em segundo, com 659.
Só que Encruzilhada do Sul tem 18.749 eleitores. Santa Cruz do Sul tem 105.107.
Traduzindo em participação proporcional: Encruzilhada mobilizou 6,60% do seu eleitorado. Santa Cruz mobilizou 0,63%. Ou seja, uma cidade cinco vezes menor colocou quase o dobro de gente para votar — e engajou proporcionalmente dez vezes mais eleitores.
O padrão se repete quando se olha a lista inteira:
| Município | Eleitores | Votantes | Participação |
|---|---|---|---|
| Encruzilhada do Sul | 18.749 | 1.238 | 6,60% |
| Herveiras | 2.629 | 117 | 4,45% |
| Lagoa Bonita do Sul | 2.317 | 102 | 4,40% |
| Tunas | 3.355 | 131 | 3,90% |
| Sinimbu | 6.831 | 255 | 3,73% |
| Segredo | 5.702 | 179 | 3,14% |
| Santa Cruz do Sul | 105.107 | 659 | 0,63% |
| Venâncio Aires | 53.383 | 320 | 0,60% |
| Rio Pardo | 28.729 | 174 | 0,61% |
| Candelária | 22.452 | 124 | 0,55% |
As seis maiores taxas de participação do Vale estão todas em municípios com menos de 19 mil eleitores. As quatro menores estão exatamente nas quatro maiores cidades da região.
No total, a região reuniu 5.077 votos de um universo de 340.396 eleitores — 1,49% de participação.
Por que a cidade pequena vota mais
Não é mistério, e não é virtude moral. É proximidade.
Em municípios pequenos, a Consulta Popular é uma disputa concreta: a proposta vencedora vira um recurso que aparece na paisagem, e a mobilização passa por sindicato rural, escola, associação de moradores e conversa de balcão. O eleitor sabe quem está pedindo o voto e por quê.
Em Santa Cruz do Sul ou Venâncio Aires, a Consulta Popular concorre com uma agenda muito mais cheia — e R$ 742 mil, num orçamento municipal grande, é uma fração que não muda a cara da cidade. O incentivo individual para parar e votar simplesmente é menor.
O efeito colateral, porém, é que a definição do que a região prioriza acaba sendo feita por uma fatia pequena e geograficamente concentrada do eleitorado. As três propostas vencedoras são todas ligadas ao meio rural. Faz sentido, dado quem votou. A questão é se isso representa a região inteira — que tem em Santa Cruz e Venâncio Aires dois centros urbanos e industriais com pautas bem diferentes.
Como as pessoas votaram
Do total de manifestações no Vale do Rio Pardo, 4.034 vieram da votação on-line pela plataforma oficial Gov.br e 1.043 pelo canal de WhatsApp. A digitalização, que em tese deveria facilitar a vida do eleitor urbano, não reverteu o padrão: as cidades com melhor conectividade e maior escolaridade média foram justamente as de menor adesão.
O engajamento cresceu na reta final. Na parcial divulgada em 23 de julho, a região tinha 3.984 votantes. Nos três últimos dias, entraram quase 1.100 votos — sinal de que a mobilização de última hora ainda é decisiva.
O que vem agora
Com o resultado consolidado, o Conselho Regional de Desenvolvimento do Vale do Rio Pardo (Corede/VRP) leva ao Piratini três propostas com R$ 742.857,14 cada. As regiões que ficaram à frente do Vale em participação foram Sul, Missões, Vale do Rio dos Sinos, Serra e Fronteira Noroeste.
Para 2027, a pergunta que fica não é como aumentar o número absoluto de votos — o Vale já está entre os seis melhores do Estado nisso. É como fazer com que os 158 mil eleitores de Santa Cruz e Venâncio Aires juntos parem de decidir menos que os 18 mil de Encruzilhada do Sul.
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