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Encruzilhada do Sul votou dez vezes mais que Santa Cruz: o retrato da Consulta Popular no Vale do Rio Pardo

Com 5.077 votantes, o Vale do Rio Pardo garantiu R$ 2,2 milhões na Consulta Popular. Veja quem votou, o que venceu e por que as cidades pequenas lideraram.

RSRedação Santa Cruz FM31 de julho de 2026 · 5 min de leitura
Encruzilhada do Sul votou dez vezes mais que Santa Cruz: o retrato da Consulta Popular no Vale do Rio Pardo

O Vale do Rio Pardo terminou a Consulta Popular de 2026 com 5.077 votantes e a sexta maior participação entre todos os Coredes do Rio Grande do Sul. É um bom número — e, ao mesmo tempo, um número que esconde uma distorção que vale olhar de perto.

A votação, realizada entre 20 e 26 de julho, definiu o destino de R$ 2.228.571,42 do orçamento estadual. O valor será dividido em cotas iguais de R$ 742.857,14 entre as três propostas mais votadas pela comunidade regional.

O que a região escolheu

Cinco propostas disputavam; três levaram recurso.

1º lugar — Programa Água na Fonte (Seapi), com 1.879 votos. Voltado à proteção de nascentes, foi o mais votado com folga. Não é um detalhe: numa semana em que a região acompanhava a elevação dos rios e mantinha ações preventivas, a comunidade escolheu como prioridade justamente o cuidado com a água na origem. É uma escolha que conversa diretamente com a discussão sobre conservação ambiental e uso do solo que atravessa todo o Vale.

2º lugar — Fortalecimento e fomento à produção e agroindustrialização da agricultura familiar (SDR), com 1.223 votos. O tema chega na mesma semana em que Santa Cruz abriu oficialmente a Semana da Agricultura Familiar, com ações na Praça da Cultura.

3º lugar — Raízes do Futuro (SDR), com 705 votos. Focado na juventude rural e na sucessão familiar, é a proposta que enfrenta o problema mais silencioso da região: quem fica na terra quando os pais envelhecem.

Ficaram de fora do repasse os projetos de manejo de solo e a formação de guias mirins, que não atingiram a pontuação necessária.

A distorção que os números absolutos escondem

Aqui está o dado mais interessante da apuração. Em números absolutos, Encruzilhada do Sul liderou a região com 1.238 votantes. Santa Cruz do Sul, o maior colégio eleitoral do Vale, ficou em segundo, com 659.

Só que Encruzilhada do Sul tem 18.749 eleitores. Santa Cruz do Sul tem 105.107.

Traduzindo em participação proporcional: Encruzilhada mobilizou 6,60% do seu eleitorado. Santa Cruz mobilizou 0,63%. Ou seja, uma cidade cinco vezes menor colocou quase o dobro de gente para votar — e engajou proporcionalmente dez vezes mais eleitores.

O padrão se repete quando se olha a lista inteira:

Município Eleitores Votantes Participação
Encruzilhada do Sul 18.749 1.238 6,60%
Herveiras 2.629 117 4,45%
Lagoa Bonita do Sul 2.317 102 4,40%
Tunas 3.355 131 3,90%
Sinimbu 6.831 255 3,73%
Segredo 5.702 179 3,14%
Santa Cruz do Sul 105.107 659 0,63%
Venâncio Aires 53.383 320 0,60%
Rio Pardo 28.729 174 0,61%
Candelária 22.452 124 0,55%

As seis maiores taxas de participação do Vale estão todas em municípios com menos de 19 mil eleitores. As quatro menores estão exatamente nas quatro maiores cidades da região.

No total, a região reuniu 5.077 votos de um universo de 340.396 eleitores — 1,49% de participação.

Por que a cidade pequena vota mais

Não é mistério, e não é virtude moral. É proximidade.

Em municípios pequenos, a Consulta Popular é uma disputa concreta: a proposta vencedora vira um recurso que aparece na paisagem, e a mobilização passa por sindicato rural, escola, associação de moradores e conversa de balcão. O eleitor sabe quem está pedindo o voto e por quê.

Em Santa Cruz do Sul ou Venâncio Aires, a Consulta Popular concorre com uma agenda muito mais cheia — e R$ 742 mil, num orçamento municipal grande, é uma fração que não muda a cara da cidade. O incentivo individual para parar e votar simplesmente é menor.

O efeito colateral, porém, é que a definição do que a região prioriza acaba sendo feita por uma fatia pequena e geograficamente concentrada do eleitorado. As três propostas vencedoras são todas ligadas ao meio rural. Faz sentido, dado quem votou. A questão é se isso representa a região inteira — que tem em Santa Cruz e Venâncio Aires dois centros urbanos e industriais com pautas bem diferentes.

Como as pessoas votaram

Do total de manifestações no Vale do Rio Pardo, 4.034 vieram da votação on-line pela plataforma oficial Gov.br e 1.043 pelo canal de WhatsApp. A digitalização, que em tese deveria facilitar a vida do eleitor urbano, não reverteu o padrão: as cidades com melhor conectividade e maior escolaridade média foram justamente as de menor adesão.

O engajamento cresceu na reta final. Na parcial divulgada em 23 de julho, a região tinha 3.984 votantes. Nos três últimos dias, entraram quase 1.100 votos — sinal de que a mobilização de última hora ainda é decisiva.

O que vem agora

Com o resultado consolidado, o Conselho Regional de Desenvolvimento do Vale do Rio Pardo (Corede/VRP) leva ao Piratini três propostas com R$ 742.857,14 cada. As regiões que ficaram à frente do Vale em participação foram Sul, Missões, Vale do Rio dos Sinos, Serra e Fronteira Noroeste.

Para 2027, a pergunta que fica não é como aumentar o número absoluto de votos — o Vale já está entre os seis melhores do Estado nisso. É como fazer com que os 158 mil eleitores de Santa Cruz e Venâncio Aires juntos parem de decidir menos que os 18 mil de Encruzilhada do Sul.

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