830 mil celulares levados em 2025: o roubo caiu, o furto virou regra — e o prejuízo mudou de tamanho
O 20º Anuário registrou 830.890 celulares levados em 2025. Os roubos caíram 18,6%, mas o furto cresceu. Veja o que fazer nas primeiras horas.
O Brasil registrou 830.890 roubos ou furtos de celulares em 2025 — 9% menos do que as 909.753 subtrações contabilizadas em 2024. O dado é do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública e traz, dentro de um número que caiu, uma mudança de padrão que merece atenção.
Os roubos — aqueles com violência ou grave ameaça — recuaram 18,6%, de 377.787 para 308.723. Já os furtos cresceram 0,9%, de 477.326 para 483.561.
Traduzindo: a queda geral veio quase toda da modalidade violenta. A modalidade silenciosa não só resistiu como avançou.
O furto passou a ser a regra
O furto já responde por 61% das ocorrências de subtração de celulares no país. Com a alta de 0,9% em um ano, a média chegou a aproximadamente 1.325 registros por dia em 2025.
É um crime de outra natureza. Acontece sem que a vítima perceba no momento — sobretudo em locais movimentados e no transporte público. Não há confronto, não há susto imediato, muitas vezes não há nem testemunha. A pessoa descobre minutos ou horas depois, quando vai pegar o aparelho no bolso.
Essa diferença tem consequência prática direta: no furto, o ladrão ganha tempo. E tempo, quando se trata de um celular moderno, é exatamente o recurso que ele precisa.
Por que o prejuízo não é o preço do aparelho
O celular virou o principal meio de comunicação do brasileiro — e muito mais do que isso. Concentra aplicativos de banco, pagamentos via Pix, agenda de contatos, documentos, redes sociais e acessos a plataformas de trabalho.
O equipamento físico é apenas parte do interesse dos criminosos. Aplicativos bancários, carteiras digitais, documentos e dados pessoais podem ser usados para transferências, empréstimos em nome da vítima, invasão de redes sociais e golpes contra os contatos da agenda.
O medo acompanha essa percepção. Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública com o Datafolha, realizada em março de 2026, mostrou que 78,8% da população teme ter o celular roubado ou furtado, e que o receio de golpes pela internet ou pelo telefone chega a 83,2%.
O custo de repor — e quem não consegue repor
Há uma camada do problema que raramente aparece nas manchetes: para boa parte das famílias brasileiras, a perda do aparelho é um evento de orçamento, não só de segurança.
A pesquisa Expansão de Seguros Inclusivos em Comunidades Periféricas, realizada pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e pelo Instituto Locomotiva, encontrou o seguinte quadro:
- 60% dos entrevistados já tiveram o celular levado, ou convivem com alguém que passou por isso, sem conseguir comprar outro imediatamente.
- 53% das famílias não cobrem todas as despesas básicas do mês.
- 36% pagam as contas sem nenhuma sobra.
- Apenas 11% terminam o mês com algum recurso disponível.
Nesse cenário, repor um aparelho inesperadamente pode exigir endividamento ou consumir recursos destinados a alimentação, transporte e moradia. E para quem depende do telefone para receber pedidos, atender clientes ou acessar plataformas digitais, o prejuízo inclui dias ou semanas de renda comprometida.
O que fazer nas primeiras horas
A resposta a um furto ou roubo exige duas frentes simultâneas: conter o acesso e registrar o ocorrido. Nesta ordem de urgência:
1. Bloqueie as contas bancárias. Antes de qualquer outra coisa. Use o telefone de alguém para ligar para o banco ou acessar o app de outro dispositivo. É a frente com maior potencial de prejuízo em minutos.
2. Bloqueie a linha na operadora. Isso impede o uso do chip para receber códigos de verificação por SMS — um dos caminhos mais usados para tomar contas.
3. Peça o bloqueio do IMEI. O bloqueio é feito pela operadora e impede que o aparelho funcione com chips no Brasil. Tenha o número do IMEI anotado em outro lugar (ele aparece na nota fiscal e na caixa do aparelho).
4. Acione o bloqueio remoto. Android e iPhone oferecem localização e apagamento remoto de dados, desde que o recurso esteja habilitado antes.
5. Registre o boletim de ocorrência. Pode ser feito online na maior parte dos estados. É documento necessário para seguro e para contestar operações fraudulentas.
6. Avise seus contatos. Golpes contra a agenda da vítima — pedindo dinheiro em nome dela — são frequentes nas primeiras horas.
Vale conhecer também o Celular Seguro, programa do Ministério da Justiça e Segurança Pública que permite comunicar o roubo ou furto e acionar bloqueios de forma centralizada, inclusive por pessoas de confiança previamente cadastradas.
E o seguro?
Com o crescimento do furto, cresceu também a oferta de produtos securitários específicos. Para Sidemar Sprincigo, presidente da Comissão de Seguros Gerais Afinidades da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), a ampliação do risco exige uma visão integrada.
"Quando o celular é levado, o prejuízo pode ir muito além do valor do equipamento. O seguro para celular e o seguro contra golpes bancários, conhecido como seguro Pix, oferecem camadas complementares de proteção", afirma.
No seguro de celular, a cobertura pode incluir roubo, furto qualificado e danos acidentais, conforme a contratação. O chamado seguro Pix pode prever transferências sob coação — em situações de ameaça, roubo ou sequestro — além de modalidades específicas de fraude eletrônica.
A ressalva é importante: a proteção não é automática para todo tipo de golpe. Eventos cobertos, limites e exclusões variam entre as apólices, e transferências voluntárias costumam ficar de fora.
Antes de contratar, compare prêmio, franquia, critérios de indenização, eventual depreciação do aparelho, documentos exigidos e exclusões. Furto simples e furto qualificado, por exemplo, podem receber tratamentos bem diferentes. Considere também o valor e o tempo de uso do aparelho e se ele é indispensável ao trabalho ou ao estudo.
O número que caiu e o hábito que não mudou
A redução de 9% é uma notícia boa e não deve ser diminuída. Mas o desenho por trás dela sugere que a mudança foi mais de método criminoso do que de exposição.
O aparelho continua sendo levado de quase 1.325 pessoas por dia no país. O que mudou é que, cada vez mais, isso acontece sem que ninguém perceba na hora — e é justamente esse silêncio que dá ao criminoso a janela de que ele precisa para transformar um aparelho em uma conta esvaziada.
Anotar o IMEI hoje, num papel guardado em casa, leva dois minutos. É provavelmente o melhor uso de dois minutos que este texto pode sugerir.
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Perguntas frequentes
Qual a diferença entre roubo e furto de celular?
Roubo envolve violência ou grave ameaça — o aparelho é tomado à força. Furto ocorre sem que a vítima perceba no momento, como em transporte público ou locais movimentados. A distinção importa inclusive para seguros: muitas apólices tratam furto simples e furto qualificado de formas diferentes.
Bloquear o IMEI impede que o aparelho seja usado?
O bloqueio de IMEI impede que o aparelho funcione com chips das operadoras no Brasil. Ele não apaga seus dados nem protege suas contas — por isso o bloqueio do aparelho precisa vir acompanhado do bloqueio da linha e do acesso às contas bancárias e digitais.
Vale a pena contratar seguro de celular?
Depende do valor do aparelho, de quanto você depende dele para trabalhar e das condições da apólice. Antes de contratar, compare prêmio, franquia, critérios de indenização, depreciação, documentos exigidos e exclusões. O seguro não impede o crime nem substitui cuidados de segurança digital.